TOPÔNIMO MARANHÃO – ORIGEM

 

  1. Estado do Maranhão – Brasil;
2. Interpretações nativas;
3. Registros contraditórios e desabonadores;
4. A formação do termo que nomeou a unidade da Federação brasileira;
5. Liames que nos unem à Freguesia do Maranhão português;
6. A opinião de renomados filólogos e historiadores portugueses.

 
     
     
“É certo que não se podem alterar registros pretéritos, entretanto, sempre em busca da verdade, e conscientes da extrema responsabilidade que nos foi atribuída, precisamos dirimir dúvidas e banir máculas seculares com que têm denegrido o topônimo Maranhão, com falaciosas interpretações, através dos tempos. Esta é, em síntese, a singela colaboração que oferecemos à sociedade maranhense em favor das gerações de hoje e de sempre”.
 
O autor

Prefácio de Edmilson Sanches, jornalista e escritor de escol, destacado membro da Academia Imperatrizense de Letras:
     
PREFÁCIO:


A verdade existe. Só se inventa a mentira.
(Georges Braque)


               Há 350 anos, em 1654, padre Antônio Vieira, um sermonário de larguíssimos recursos retóricos, pronunciava em missa em São Luís palavras que, ao longo dos tempos, vêm marcando em brasa a sensibilidade do povo maranhense. A respeitabilidade, os méritos do grande orador sacro atraíram, no correr dos séculos, os estudiosos e curiosos, além de simples leitores. De uma forma ou de outra, o interesse pela obra vieirense e sua divulgação contribuíram para a disseminação de uma incômoda associação que vincula o nome do estado (Maranhão) ao substantivo “mentira”. Junte-se a isso as controversas hipóteses para o ter-se dado o nome de “Maranhão” ao estado brasileiro e à inconclusa etimologia dessa palavra, à qual alguns teimam não apenas agregar, por metonímia e aumentativo, um desairoso sinônimo de inverdade, mas intentam transformá-la na própria mentira, uma grande mentira.

               Três séculos e meio depois do pronunciamento de Vieira, surge uma obra que também fala alto à consciência maranhense e reúne dados e fatos lingüísticos e históricos que concluem que já é hora de romper os laços semânticos que elam o nome do estado à mentira.

               José Herênio de Souza, autor de Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira, sabe o quanto lhe custou de tempo, esforço e outros recursos para chegar à realidade do livro impresso. Igualmente, à parte a pessoal satisfação de legar essa enorme contribuição aos estudiosos da matéria, à verdade histórica e, claro, ao amor-próprio dos maranhenses, ele sabe do penoso caminho que seu trabalho tem pela frente, para ir retirando, com bisturi, as grossas camadas de conceitos e preconceitos importunos que se aderem sobre tão adiposo assunto. Como entende o próprio autor: “(...) algo deve ser feito para que adjetivações depreciativas sejam relegadas a plano secundário”.

               José Herênio não se omite de mostrar um pouco do que sente em relação à maneira como se construíram e como vingaram “hipóteses e ilações vagas” sobre a “identidade toponímica” da terra maranhense, por ele consideradas “soluções bastante controversas e de certo modo ingênuas”. E, duro, considera: “Mas, bem pior, foi terem-se dimensionado tão-só as ilações desairosas que deram guarida a sinonímias agressivas, derivadas de linguagem vulgar, acolhendo termos deturpados e descabidos, que redundaram em adjetivações pejorativas, em desfavor de nossa gente”.

               Da coleção de razões para o nome “Maranhão” ter sido dado ao nosso estado, o autor reservou-se o direito à própria escolha, defendendo-a e a interpretando. “A história não se faz somente com dados, mas também com interpretações” — a frase é de Gregório Marañón, notável médico e escritor espanhol, cujo sobrenome torna-se, aqui, um curioso e bem-vindo elemento de coincidência, o que, de certa forma, faz mais oportuna sua citação.

               Ao tempo em que colige a diversa – e, em muitos casos, adversa — exemplificação de origens para a nominação do estado do Maranhão, José Herênio oferece ao leitor um passeio de turismo histórico, mostrando-nos lugares de Portugal, país que nos trouxe e nos tirou e também nos legou costumes, língua, nomes...

***


               A partir de agora, este livro torna-se, senão ponto de partida, no mínimo referência obrigatória, indescartável, para os que se aventurarem a continuar as buscas, já que, na avaliação do próprio autor, esta não é uma obra fechada nem o tema, esgotado.

               Lingüística... História... No princípio, era o substantivo, que, por meio do verbo, fez-se falsa verdade. O Maranhão não é uma mentira. As razões de seu nome são outras e, como se demonstra neste livro, estão além do fundo falso que a maioria não soube descobrir.

               Se há uma mentira de fundo em nosso estado, ela é a mesma que se assenhoreia país adentro e afora: é a mentira política, a mentira dos (des)governos, que, de modo quase genocida, vem negando vida e dignidade à maior parte da população brasileira. A maior mentira não está no nome, mas na ação, ou na falta dela, na negação dela.

               É do irlandês Oscar Wilde a frase: “Todo mundo pode fazer história. Só um grande homem pode escrevê-la.”

               José Herênio é um grande homem.


Edmilson Sanches
(esanches@jupiter.com.br)


Apreciação do Doutor Milson Coutinho, renomado pesquisador e escritor, membro da Academia Maranhense de Letras:
     

APRESENTAÇÃO

Milson Coutinho
Da Academia Maranhense de Letras



               José Herênio de Souza, brilhante conterrâneo e confrade-correspondente da Academia Imperatrizense de Letras topou o desafio, vasculhou alfarrábios, correu pelas trilhas dos letrados de longo curso, varou o Atlântico, fez fila dos Dicionários etimológios e afinal nos presenteia com este belo ensaio sobre TOPÔNIMO MARANHÃO.

               É claro que o eminente homem de letras - percebe-se isso do começo ao fim da obra - rompeu cipoal, embrenhou-se nos emaranhados matagais da costa brasileira para tentar desvendar, sob todos os ângulos, se nós maranhenses, somos ou não grandes mentirosos, se Maranhão tem a ver com maranha, ardil, jogo de cena, enrolação, etc.

               Consultei o velho Houaiss, edição de 2001, e lá vem o grande mestre a ministrar, a todos nós, que "para Maranhão, um dos muitos étimos sugeridos é nheengatu Mara-nhã, corredeira, correnteza, do tupi barã-nhana, "rio que corre", ou seja, o rio Maranhão é semelhante a um rio que corre, segundo Antenor Nascentes. Numerosos são os étimos propostos, todos eles não satisfatórios" (p. 1848).

               José Herênio também leu e escreveu sobre essas hipóteses para concluir que a palavra Maranhão não é coisa de índio, já que se grafava, desde muito, na Europa.

               O estudo, as comparações e as discussões propostas pelo autor podem até não esgotar o assunto, mas vai raspando a trave. Suponho que ninguém foi tão longe, num emaranhado tão complicado, quanto esse brilhante pesquisador.

               Li os originais de ponta a ponta, e confesso que, mesmo como minha nesga de dúvida, diante do polêmico nome, estou propenso a assinar, em baixo, a teoria de José Herênio. Mas confesso que o assunto, agora sim, ganhou contornos sérios, que tanto podem encerrar a matéria, quanto deflagrar a segunda "guerra" vocabular. A primeira foi São Luís com "z". A segunda está começando.

               O trabalho de pesquisa desenvolvido pelo autor merece nosso elogio e reconhecimento. Afinal, a pesquisa é uma atividade científica cheia de desafios, que exige devoção, coragem e entusiasmo. É este o ponto mais compensador da pesquisa: o entusiasmo de pesquisar.

               Nesta obra de José Herênio de Souza sente-se esse entusiasmo do pesquisador pela extensão e dedicação com que se atirou ao tema, contribuindo para esclarecer dúvidas e deixar sua contribuição para esse grande debate.


Parabéns ao autor


 
 

 
 
     
Como tudo começou.
Foto: (O Portal da História – Biografias) - http//www.arqnet.pt/portal/biografias.html

 
 
 

Maranhão: enredamento, maranha- maranhão – citações e considerações do autor:

               Quando nos deparamos com registros históricos, partimos da premissa segundo a qual eles enfocam a expressão da verdade em favor do futuro. Entretanto, quando algo é relatado próximo ao tempo ocorrido, sem embasamento adequado ou sob influências anômalas, tais registros terminam por perder a autenticidade desejada face à posteridade.

               Para ilustrar tal assertiva, tomo por escopo justificativas várias que, através dos tempos, têm sido alegadas para justificar a origem do toponômio Maranhão. Renomados filólogos e destacados historiadores, decorridos séculos, até hoje, não nos ofereceram explicações plausíveis, que sejam capazes de dirimir dúvidas existentes nos léxicos que têm sido editados.

               Recorro, por exemplo, ao Dicionário Aurélio – 2a. edição revista e ampliada, pela Editora Nova Fronteira, que nos oferece a seguinte resposta “maranhão1. {de maranha + ão1, de certo,} S. m.1. Mentira (1). 2. Intriga caluniosa; mexerico, fofoca ... “

               3. Bras. Zool. V. flamingo: "o maranhão dorme ainda, em pé no meio do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das pernas encolhida." (José de Alencar, O Sertanejo, p. 213)”. Outras derivações substantivas ou adjetivações de igual jaez dispensam maiores comentários.

               Em Antônio Houaiss, o renomado filólogo nos oferece doutas citações. Dá-nos explicações bem mais amplas, ornadas de desejadas convincências, embora também impregnadas de interpretações que se me afiguram dúbias quanto ao significado originário de maranha, fato que termina por levar muitos a conceituações modernas e distorcidas, que terminaram por alcançar o topônimo Maranhão.

               Ora, Sou convicto de que nenhum maranhense aceita a pecha depreciativa, difundida nos léxicos, sobre o significado do topônimo Maranhão. Tal insólito fato decorreu não apenas da dinâmica da língua, mas à ação inconseqüente ação ou omissão de alguns, que preferiram abonar distorções.

               Inconformado, desde épocas que se perderam na poeira do tempo, já no outono da vida resolvi buscar no Instituto Geográfico Brasileiro resposta plausível para uma velha inquietação. Ao consultar o Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão, recolhi as observações que se seguem sobre o termo em pauta, no verbete MAR: “os que optaram por Maranhão como sinônimo de mentira, certamente se valeram da prédica do erudito e celebre jesuita padre Antônio Vieira – 1608-1697... “...sempre em lucta no Maranhão, pregando na quinta dominga de 1654 na igreja do seo collegio, tomando do Evangelho um texto apropriado ao seu intento, recitou sobre a verdade e a mentira em longo discurso, ou antes sátira mordaz e pungente contra os nossos antepassados, seus antagonistas. Para aqui trasladamos o que elle disse sobre o título do presente artigo por vir de alguma sorte confirmar o derivar-se este nome de maranhas ou mentiras, como explicou o seu companheiro Manoel Rodrigues...”

               ...Disse o padre Antônio Vieira, que se as lettras do abcedário se houvessem de repartir pelas várias províncias de Portugal, não havia dúvida, que o M pertencia de direito à nossa província, porque M Maranhão, M murmurar, M moutejar, M maldizer, M malsinar, M mexericar, e sobre tudo M mentir, mentir com palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos. Que no Maranhão até o sol era mentiroso, porque amanhecendo muito claro, e promettendo um formoso dia, de repente e dentro de uma hora se toldava o ceo de nuvens, e começava a chover como no mais entranhado inverno, e que d´ahi já não era para admirar que mentissem os seus habitantes como o ceo, que sobre elles influía”

               Seguindo essa mesma linha depreciativa, há citações em outros registros, que prefiro omitir. Ora, se não bastasse a atitude de alguns, que consideravam o nosso solo uma espécie de “Sibéria do Reino Lusitano”, bem pior foi o padecer sob certas posturas conceituais. O pio e erudito padre Antônio Vieira, por exemplo, em sub-repitícia manifestação de revolta, contra tudo e contra todos, elegeu a gente simples do Maranhão para “castigar” com suas famosas catilinárias

               Agindo sob o manto da doutrinação cristã, usou o púlpito para deblaterar contra o nosso povo, usando terminologias desairosas, em seqüência ao anteriormente apontado.
“... Maranhão, corte da mentira”, e mais: “segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade”. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade...” – (Literatura Brasileira – Sermões Escolhidos – Vol. I – Edameris, São Paulo-1965).

               Ora, nenhuma culpa coube aos maranhenses pelo seu afastamento dos círculos de influência junto à Corte e sua designação para exercer “missão no Maranhão na catequização dos tapuias” – (termos da nomeação). O célebre doutrinador dos gentios, orador prodigioso, considerado, talvez, o maior homem das letras portuguesas de todos os tempos, podia ter lá as suas motivações pessoais, cujas perquirições me parecem ociosas. Embora tenha influenciado gerações com o seu notável saber, há que manifestarmos repúdio contra o apontado deslize que tem atravessado séculos e se transformado em desfavorável estigma em desfavor da história e da dignidade da gente maranhense. Merece, contudo, perdão e a nossa prece.

               Em meados do século passado, surgiu o Dicionário Caldas Aulete de Antenor Nascentes, Editora Delta – 1958, que registrou à pág. 3138 – vol 3, ao lado da definição de maranhão, s.m., como peta engenhosa, mentira; a propósito, segue no verbete citação correlata do ínclíto Rui Barbosa, figura de maior erudição na cultura nacional, que possibilitou ser pinçada parte do que se segue: “...sempre estou para ver a sua habilidade, como de um maranhão me engendra na verdade. Dir-se-ia, porém, um caso de cólera morbus nos domínios do senso moral. Tal a corrença e a coliquação com que se sucedem os despropósitos e maranhões”. (R. 3,7 Esfola da calúnia), pág 156 – ed. 1933).

               Ainda no Caldas Aulete há menção a Aq.Ribeiro, Volfrânio, c 8 pág 252-4a.edição que assim registra: maranhão - Brasil - Amazônia: madraçaria, malandragem, maranha, esperteza, velhacaria, e diz que maranhar é o mesmo que emaranhar. Define maranha, como fios, fibras enredadas ou embaraçadas, molho de cabelos, cadarço, borra de seda; teia de lã já tecida, mas não apisoada. Em linguagem figurada segue apontando: lance negativo,intrincado: não me meto nessa maranha...” – e outras definições do mesmo sentido.

              É de se destacar que os grandes vultos da história da língua pátria, acima mencionados, fizeram seus pronunciamentos em épocas bem distintas, mas dando a entender que a segunda acepção adotou uma certa coloração na primeira.

                Há-de se notar que o Dicionário Caldas Aulete registra o verbete maranhense como pessoa natural ou residente do Maranhão, mas nada esclarece quanto ao étimo deste topônimo. (Grifo do autor).
Além do popular Dicionário Aurélio – Ed. Nova Fronteira - citado em fls que seguem, há que observarmos o que diz o prestigioso dicionário do renomado filólogo Antônio Houaiss - (Editora Objetiva – 2001), que assim dispõe sobre o tema em pauta, na pág 1848:

1- l.maranhão s.m. (1697) – natural ou habitante do Estado do Maranhão; maranhense. Etim. top. Maranhão;
2. -maranhão, s.m. (1851-1881) mentira engenhosa. Orig. etimológica maranha+ao;

               ver maranh- sin/var, ver sinonímia de mentira, antonímia de ardil e sinonímia de verdade.
1. maranhense, adj (1531cf IBGE) relativo ao Maranhão, estado do Brasil, ou o que é o seu natural ou habitante Etim top. Maranhão+ense para Maranhão, um dos muitos étimos su Aborda várias suposições outras com base na língua Tupi e faz alusão ao filólogo ao Antenor Nascentes, autor da observação que segue: “numerosos são os étimos propostos, todos eles não satisfatórios”, (Grifo do autor) – e acolhe a seguinte sentença de A. Nascentes: “a questão, apesar de todos estes esforços continua sem solução”. E mais, do renomado historiador e filólogo: o nome do rio passou ao Estado do Maranhão (1621) que abrangia (1722) a província (1822) e, finalmente o Estado Federativo (1889). (Nota do autor: também aqui não foi elucidada, de forma bem clara, a origem do topônimo Maranhão).

              
Prosseguindo, o filólogo Antônio Houaiss remete ao verbete “maranh-el comp. antepositivo, do português maranha, espanhol maraña, talvez pré-romano, quiçá cog. Do provençal e franco provençal baragne´sarçal, carrascal, estorvo, o que permitiria presumir cognação com o português baranha. (espanhol baraña) baranho, o que autorizaria, por fim, a cognição morfosemanticamente plausível com o português baraço (1260) – quase sempre atribuído ao árabe maraç/ma´rasa ´corda, cordel, a que JP.Machado apõe a nota “estranho a ausência do art. definido arábico... a ser assim, ter se-iam três bases conexas 1) maranh, 2)baranh e barç, a saber: amaranhado, amaranhamento, amaranhar, desmaranhado, desmaranhador, desmaranhamento, desmaranhante, desmaranhar, desmaranhável, desmaranho, desmaranhado, desmaranhamento, desmaranhante, ... emaranhar, maranha, maranhada, maranhão (não Maranhão) maranhar, maranheiro, maranho, maranhoa, maranhia, e segue... 2) baranho, baranha, 3) baraça, baracinho... desembaraçado, embaraçado, embaraçante, embaraça, embaraço...”(Grifo do autor).

                Em maranha, s.f. (1348)- l.originariamente: 1. porção de fios ou fibras embaraçadas (molho de cabelos) <a meada virou uma maranha> 2. teia ou trama de lã antes de ser apisoada, 3. porção de coisas misturadas; confusão mistura; 4. coisa intrincada e, agora, segue evoluindo: maquinação, enredo, ardil, combinação, pacto, malandragem, confusão, mexerico vadiagem etc... Aqui, cita ainda, maranhano- el.comp antepositivo do top. Maranhão, em compostos do tipo Afro –(ver), cuja lógica lhe é totalmente aplicável e maranhão s.m.(1697obsl. Natural ou habitante do Maranhão.

               Com vistas ao retro mencionado, constatamos que estão inconclusos os registros de renomados filólogos e historiadores. Assim sendo, tendo em vista as desconfortantes e indesejadas conseqüências que aspectos semânticos de determinados termos nos têm acarretado, tornou-se imperiosa a busca de outros assentamentos que se referissem à épocas pretéritas que, pela maior proximidade no tempo, pudessem oferecer definições - mais claras - sobre a origem do controvertido tema.

                O Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuesa, de Antônio Geraldo da Cunha, 2º edição - 1986, pág. 500, não define o étimo do topônimo Maranhão. Mas registra os seguintes verbetes:
a) maranhense – adj s2g. “natural ou habitante do Estado Maranhão relativo a este estado´´- do top Maranhão+ense - 1881;
b) maranha – s.f. ´fibras ou fios enredados´! Maranhas pl. XIV, marañas pl. XV ¡ Possivelmente de origem pré-romana - Des-Emaranhar - De-semma, 1813 – EmarranhADO - emma-XVII - emaranhar [emma] 1813 – maranhÃO, s.m. ´grande mentira´ 1881.

               I - Dicionário Português Espanhol - 2004 – Editora FTD S/A – São Paulo – (Maria Esmeralda Balestero e Alvarez Maciel Souto Balbáz – pág 48:
Emaranhar: v. enmaranhar; enredar, mesclar, confundir.

DEFINIÇÕES ESPANHOLAS

II -Dicionário Espanhol-Português – Editora Moderna –São Paulo – 2004 – Por Miguel Diez/Garcia Talavera, pág. 333:
Ma.ra.ña – s.f. 1) lugar coberto de mato. Matagal; 2) Fibras, fios ou cabelos enrolados. Emaranhados. (Grifos do autor).

III - UNIVERSIDADE DE ALCALÁ DE HENARES

Departamento de Filologia - Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Dicionário para la Enseñanza de la Lengua Española para Brasileiños

(2ª tiragem –2001)

= ma.ra.ña (maráña) – 1) f. Conjunto de árboles, arbusto y otras plantas que crecen muy juntas y de forma salvaje: cortaram la maraña para evitar incêndios; >maleza – emaranhado; 2) fig. Conjunto de hilos o de pelos enrollados entre si y que no se puedem separar: intentó desenredar aquella maraña de pelo lleno de nudos > enredo – maranhado. maleza: f.Conjunto de árboles, arbustos y outras plantas que crecen my juntas e de forma salvaje: no podian avanzar entre la maleza; la maleza ocultaba la fuente – emaranhado.

               Observações. Diante dos citados registros, fica bem clara a definição de maraña em espanhol ou maranha na língua portuguesa, com o mesmo significado de emaranhado ou conjunto de árvores, lugar coberto, matagal, tal como registraram antigos filólogos portugueses. Estes asseguraram que, ao ser adotado em maranha – o sufixo aumentativo ão, veio a resultar, em Portugal, na designação do topônimo Maranhão.

               O historiador Mário Meireles em “História do Maranhão”, pág 30, registra com muita propriedade as importantíssimas citações que se seguem:


Portugal - matagal, emaranhados. “...vegetação que conserva características mais próximas das originais - (relíquia de antiga floresta), conservada para fins científicos. Foto Geofcul - Faculdade de Ciências da Universidadede Lisboa.

 

a) Xavier Fernandes – Topônimos e gentílicos (Porto 1943)... que em Navarra existe uma localidade deste nome; entretanto, ressalta que o vocábulo deve ser o aumentativo de maranha, sinônimo de matagal, mesmo porque “na província do Minho existe o topônimo Maranhas e, mais, porque Maranhão é o nome de uma antiga aldeia alentejana, concelho de Avis, o que parece provar que tal palavra existia em Portugal antes do descobrimento do Brasil”. (Pg 30, História do Maranhão – Mário Meireles).

b) Cândido de Figueiredo, mestre da língua, discordando (Problemas de linguagem, v.II) da hipótese de Orville Derby (Costa norte do Brasil), de que o vocábulo seria uma variação morfológica de marachão (dique, recife); esclarece que ele é simples aumentativo de maraña – matagal , coisa enredada, teia de lã; e fala naquela aldeia alentejana de que teríamos herdado o topônimo. – (História do Maranhão, Meireles, Mário - pág. 30). (Grifo do autor).
MARANHÃO – Etimologia do nome pág. 437.

               Diz o Comendador João Francisco Lisboa nos Apontamentos para a História do Maranhão, Livro l, que os antigos cronistas e historiadores armaram grandes disputas acerca da origem e etimologia do nome Maranhão, sendo mui provável ter sido semelhante nome derivado de algum transitório descobridor, pois o apelido de Maragnon, aportuguezado depois, já de muitos séculos atrás era conhecido na Espanha; - (Grifo do autor)

               Nesta mesma linha de raciocínio, aborda, de forma impar, o grande filólogo e historiador português, Doutor J. Leite de Vasconcelos, em sua Antroponímia Portuguesa, onde destacamos trechos elucidativos: “o termo maraña já vigorava em Espanha e foi ter a Portugal. Ressalta, com apoio em Cândido de Figueiredo – Vol. II – 1928 – 3ª edição – que dispõe às págs 88/95:

                “ ... MARANHÃO – nome comum, é derivado de maranha, palavra antiga em nossa língua, para onde veio do castelhano maraña...coisas enredadas, a tela de lã já tecida”.

               Em nome do bom senso, em que pese os séculos decorridos, cabe-nos buscar elucidar o tema em favor da auto-estima das futuras gerações

               De tal controvérsia, uma indagação tem desafiado séculos: afinal, qual a origem do topônimo Maranhão? Após consultar registros e opiniões de doutos historiadores, há que refutarmos certas conclusões que não se coadunam com a verdade dos fados. Afinal, são frágeis as ilações que se valem do vocabulário indígena, das “mentiras” – (maranhas) de Lopo Aguirre ou, ainda, o malabarismo que fizeram utilizando os termos MAR-NON, com o objetivo de construir o vocábulo Marañon, termo que já existia em Espanha há mais de três séculos. Distanciados dos fatos ocorridos, somos levados a sugerir a hipótese que tem por base a anciã Freguesia do Maranhão português – pertencente ao município de Avis, cuja existência traz vivas marcas da ocupação romana no território lusitano, fato que precede à data da fundação do Brasil. A propósito, o renomado filólogo e historiador português assim se expressou, em livro que publicou em Portugal, no ano de 1928:

               “Portanto, teremos de admitir que a razão que levou os portugueses a dar o nome de MARANHÃO àquela grande maranha, em que se constituiu uma aldeola alentejana – levaria outros filhos de Portugal a chamar MARANHÃO àquela grande maranha da costa do Brasil”. Pág. 60 – Antroponímia Portuguesa – Doutor J. Leite de Vasconcellos 1928.

               “Tudo nos leva, pois, a crer que o termo maranhão, nome comum, derivado de maranha, existia em Portugal antes do descobrimento do Brasil, para designar a grande maranha conhecida hoje por MARANHÃO (Brasil)”. – Assim conclui em Antroponímia Portuguesa, pág. 61, o Doutor José Leite de Vasconcellos – 1928. Grifos do autor. (Extratos de páginas gentilmente cedidas pelo Departamento de História do Município de Avis, Portugal). Consultada, a Doutora Marta Alexandre do Departamento de História da Municipalidade de Avis asseverou-nos que não hesitaria um só instante em subscrever as conclusões do Doutor J. Leite de Vasconcellos.

               Entendemos, assim, que as assertivas do destacado filólogo bem corroboram as opiniões que foram esboçados por outros ilustres historiadores, as quais incorporamos à presente obra, que ora levamos ao conhecimento público.

José Herênio

 

 



 


Parecer da Professora Portuguesa
Maria de Lourdes Batista

 

               Por sabê-la dedicada ao estudo da lingüística e ser natural de Portugal, procuramos ouvir a professora Maria de Lourdes Batista, que assim opinou sobre a pesquisa encetada concernente ao termo maranha ou maranhão, adotados na Língua Portuguesa:

               “Honrou-me, sobremaneira, o Dr. José Herênio de Souza, ao dar-me a conhecer sua Pesquisa sobre o topônimo Maranhão. Ao elaborar sua tese, após intenso labor, premia-nos o autor com a erudição e o saber que lhe peculiar, afigurando-se como exemplar fonte de inspiração aos que militam em favor das boas causas.
O trabalho a que ora me refiro reflete a importância do desenvolvimento dos fatos históricos em relação à Língua Portuguesa. Esse dinamismo lingüístico que nos tem explicado as fases sincrônicas dos diassistemas, bem como a sucessão de sincronias na diacronia.

                Impossível deixar de mencionar o caráter conservador, por exemplo, do latim hispânico, o que explica formas antigas que se mantiveram no português e no espanhol.

                Já no séc. VIII, há uma cisão geo-linguística, desenvolvendo-se o falar galego, ao norte, e o moçorábico, ao sul. Eis um exemplo do princípio sociolingüístico, que explica a maior ou menor intensidade das transformações lingüísticas.
Coube, porém, a Camões, embora tivesse usado formas populares, o enriquecimento do léxico. Ele introduziu duas centenas de palavras clássicas – (latinismos). Sem dúvida, ao usar o vocábulo Lusitânia, sabia que era proveniente de Luso e Lysia, filhos e companheiros de Baco.

                O enfoque de José Herênio, em minha singela opinião, deixa eloqüente prova de que o problema da língua portuguesa no Brasil, envolve aspectos políticos, sentimentais e lingüísticos, sendo as fontes históricas os seus mananciais.
Com vastíssima exemplificação, o autor procura desfazer errôneas interpretações, direcionando a pesquisa para a notável tese que propõe, com sólidas bases, postas à margem há tanto tempo, talvez por séculos. Essa uniformidade de estudo leva-o a preciosas colocações sedimentadas no estudo filológico, demonstrando que a linguagem brasileira e a origem das palavras – (inclusive o topônimo Maranhão), por conseqüência, é bem mais que o sincretismo de dialetos.

                Em verdade, é decorrência da variada procedência das imigrações, sobretudo dos portugueses, desde os tempos da colonização e bem antes dela.

                O autor aponta, com inequívoca comprovação, elos históricos e filológicos que nos aproximam e prendem indissoluvelmente ao português de além-mar.

                Ao cotejar todos esses fatos abordados, admite a existência de dicotomias, arrolando, porém, traços e elementos diferenciadores que são sobejos fundamentos incontestes desta pesquisa. Afinal, ela tem incomum abrangência e dimensão para dirimir dúvidas em torno do real significado do termo Maranhão.
Lastreados, pois, em inúmeras citações provenientes de estudos filológicos, fica eloqüente que a proposição ora apresentada pelo Dr. José Herênio de Souza tem respaldo
em fontes da própria etimologia da palavra que veio a dar origem ao termo que motiva sua interessante pesquisa.

               De priscas eras, sabe-se de aldeões – e a signatária tinha ascendentes que o usavam - , que o vocábulo “maranha” já era fluente em terras lusitanas, fato que coloca por terra os frágeis “arranjos” lingüísticos que dizem ter originado o termo “Maranhão”.

               É de bom alvitre reproduzir formas de falar que, muitas vezes, em altas horas da noite, ao fiarem, as velhas senhoras, quando a lã se embaraçava (significado hodierno), assim se expressavam: “a lã está emaranhada – (o mesmo termo que já existia na Galiza).

              Esta acepção, aplica-se, também, fertilmente, ao mato quando muito denso, quase intransponível. Respaldam tal assertiva os léxicos espanhóis que, como fonte originária, foram introduzidos no presente trabalho.
Neste sentido, vale citar pequeno trecho do “Dicionário para la Enseñanza de la Lengua Española para Brasileiños = 1) f. ma.ra.ña (maráña) - conjunto de árboles, arbusto y otras plantas que crecem muy juntas y de forma salvage: cortaram la maraña para evitar incêndios… emaranhado...2)fig. conjunto de hilos o de pelos enrollados entre si y que no se puedem separar...” – ( Ver pág. 26, desta obra).

                Atendo-nos a ensinamentos de mestres, cabe – aqui – transcrever Xavier Fernandes – pág. 61 de Documentos Maranhenses nº. 13, referindo-se ao termo pesquisado:
“... se assim for, subsistirá apenas como um problema novo que, a rigor, não é da História, mas dos filólogos e lingüistas... E, por fim, à pág. 27 – (Topônimos e Gentílicos), diz que o termo “seria simples aumentativo de maranha, matagal.”
Por tudo isto, o autor comprova com maestria, que o vocábulo existia, em Portugal, muito antes das frágeis e esdrúxulas conotações, para justificar a origem da palavra Maranhão. Fixos em suas idéias, os historiadores do passado não se deram conta da existência pretérita da forma hispânica Marañon, no séc. XIII. Preferiram, assim, ater-se a concepções vagas que não poderiam prosperar face à posteridade. (Vide Bernardo Berredo – (parágrafo 11 de seu relato, citado pelo autor à página 31 deste livro).

               Diante das razões em apreço, ao opinar pela procedência das considerações expostas pelo autor, subscrevo in totun os termos do presente trabalho que, salvo melhor juízo, se me afiguram de caráter conclusivo.

 

Rio de Janeiro, janeiro de 2005.

Maria de Lourdes Batista

Licenciada em Letras. Pós-Graduada em Docência Superior e
Mestranda em Educação


NOTA DO AUTOR

               Pessoalmente, apóio-me nas assertivas de J. Leite de Vasconcelos, Doutora Marta Alexandre, do Departamento Técnico de História do Município de Avis, nas menções e ensinamentos registrados por Cândido de Figueiredo, Antenor Nascentes, Xavier Fernandes, Comendador João Francisco Lisboa, Mário Saa, Evanildo Bechara, e nos documentos incontestes que me foram enviados pela Câmara Municipal de Avis, pesquisas na Web e outros, dentre os quais o parecer da Professora Maria de Lourdes Batista. E assim respaldados, sem sofismas ou afirmações levianas, permitimo-nos tecer analogias que entendemos verazes e optamos pelo topônimo do Maranhão alentejano, por considerá-lo a fonte inspiradora capaz de emprestar o seu nome à querida terra do Maranhão brasileiro.

               É claro que não se podem modificar registros pretéritos, mas vale como matéria a ser analisada e discutida, detidamente, visando a esclarecer e a valorizar o assunto nos seus devidos termos. Entendemos, por isso, que algo deve ser feito para que adjetivações depreciativas sejam relegadas a plano secundário.

     

 
Fotos: Sérgio Horta Portugal – e http://fisicohomepage.hpg.ig.com.br/avs-maranhao.htm
 
= x =

“Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira”

Por José Herênio de Souza, aeronauta aposentado, advogado e membro titular da Academia Imperatrizense de Letras.

Contatos: herenio@uol.com.brjoseherenio@globo.com

© 2005 José Herênio de Souza. Todos os direitos reservados ao autor.