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A verdade existe. Só se inventa a mentira.
(Georges Braque)
Há
350 anos, em 1654, padre Antônio Vieira, um sermonário de
larguíssimos recursos retóricos, pronunciava em missa em
São Luís palavras que, ao longo dos tempos, vêm marcando
em brasa a sensibilidade do povo maranhense. A respeitabilidade, os méritos
do grande orador sacro atraíram, no correr dos séculos,
os estudiosos e curiosos, além de simples leitores. De uma forma
ou de outra, o interesse pela obra vieirense e sua divulgação
contribuíram para a disseminação de uma incômoda
associação que vincula o nome do estado (Maranhão)
ao substantivo “mentira”. Junte-se a isso as controversas
hipóteses para o ter-se dado o nome de “Maranhão”
ao estado brasileiro e à inconclusa etimologia dessa palavra, à
qual alguns teimam não apenas agregar, por metonímia e aumentativo,
um desairoso sinônimo de inverdade, mas intentam transformá-la
na própria mentira, uma grande mentira.
Três
séculos e meio depois do pronunciamento de Vieira, surge uma obra
que também fala alto à consciência maranhense e reúne
dados e fatos lingüísticos e históricos que concluem
que já é hora de romper os laços semânticos
que elam o nome do estado à mentira.
José
Herênio de Souza, autor de Topônimo Maranhão: Apagando
a Mentira, sabe o quanto lhe custou de tempo, esforço e outros
recursos para chegar à realidade do livro impresso. Igualmente,
à parte a pessoal satisfação de legar essa enorme
contribuição aos estudiosos da matéria, à
verdade histórica e, claro, ao amor-próprio dos maranhenses,
ele sabe do penoso caminho que seu trabalho tem pela frente, para ir retirando,
com bisturi, as grossas camadas de conceitos e preconceitos importunos
que se aderem sobre tão adiposo assunto. Como entende o próprio
autor: “(...) algo deve ser feito para que adjetivações
depreciativas sejam relegadas a plano secundário”.
José
Herênio não se omite de mostrar um pouco do que sente em
relação à maneira como se construíram e como
vingaram “hipóteses e ilações vagas”
sobre a “identidade toponímica” da terra maranhense,
por ele consideradas “soluções bastante controversas
e de certo modo ingênuas”. E, duro, considera: “Mas,
bem pior, foi terem-se dimensionado tão-só as ilações
desairosas que deram guarida a sinonímias agressivas, derivadas
de linguagem vulgar, acolhendo termos deturpados e descabidos, que redundaram
em adjetivações pejorativas, em desfavor de nossa gente”.
Da
coleção de razões para o nome “Maranhão”
ter sido dado ao nosso estado, o autor reservou-se o direito à
própria escolha, defendendo-a e a interpretando. “A história
não se faz somente com dados, mas também com interpretações”
— a frase é de Gregório Marañón, notável
médico e escritor espanhol, cujo sobrenome torna-se, aqui, um curioso
e bem-vindo elemento de coincidência, o que, de certa forma, faz
mais oportuna sua citação.
Ao
tempo em que colige a diversa – e, em muitos casos, adversa —
exemplificação de origens para a nominação
do estado do Maranhão, José Herênio oferece ao leitor
um passeio de turismo histórico, mostrando-nos lugares de Portugal,
país que nos trouxe e nos tirou e também nos legou costumes,
língua, nomes...
***
A
partir de agora, este livro torna-se, senão ponto de partida, no
mínimo referência obrigatória, indescartável,
para os que se aventurarem a continuar as buscas, já que, na avaliação
do próprio autor, esta não é uma obra fechada nem
o tema, esgotado.
Lingüística...
História... No princípio, era o substantivo, que, por meio
do verbo, fez-se falsa verdade. O Maranhão não é
uma mentira. As razões de seu nome são outras e, como se
demonstra neste livro, estão além do fundo falso que a maioria
não soube descobrir.
Se
há uma mentira de fundo em nosso estado, ela é a mesma que
se assenhoreia país adentro e afora: é a mentira política,
a mentira dos (des)governos, que, de modo quase genocida, vem negando
vida e dignidade à maior parte da população brasileira.
A maior mentira não está no nome, mas na ação,
ou na falta dela, na negação dela.
É
do irlandês Oscar Wilde a frase: “Todo mundo pode fazer história.
Só um grande homem pode escrevê-la.”
José
Herênio é um grande homem.
Edmilson Sanches
(esanches@jupiter.com.br)
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Maranhão:
enredamento, maranha- maranhão – citações
e considerações do autor:
Quando
nos deparamos com registros históricos, partimos da premissa
segundo a qual eles enfocam a expressão da verdade em favor do
futuro. Entretanto, quando algo é relatado próximo ao
tempo ocorrido, sem embasamento adequado ou sob influências anômalas,
tais registros terminam por perder a autenticidade desejada face à
posteridade.
Para
ilustrar tal assertiva, tomo por escopo justificativas várias que,
através dos tempos, têm sido alegadas para justificar a origem
do toponômio Maranhão. Renomados filólogos e destacados
historiadores, decorridos séculos, até hoje, não
nos ofereceram explicações plausíveis, que sejam
capazes de dirimir dúvidas existentes nos léxicos que têm
sido editados.
Recorro,
por exemplo, ao Dicionário Aurélio – 2a. edição
revista e ampliada, pela Editora Nova Fronteira, que nos oferece a seguinte
resposta “maranhão1. {de maranha + ão1, de certo,}
S. m.1. Mentira (1). 2. Intriga caluniosa; mexerico, fofoca ... “
3.
Bras. Zool. V. flamingo: "o maranhão dorme ainda, em pé
no meio do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das
pernas encolhida." (José de Alencar, O Sertanejo, p. 213)”.
Outras derivações substantivas ou adjetivações
de igual jaez dispensam maiores comentários.
Em
Antônio Houaiss, o renomado filólogo nos oferece doutas citações.
Dá-nos explicações bem mais amplas, ornadas de desejadas
convincências, embora também impregnadas de interpretações
que se me afiguram dúbias quanto ao significado originário
de maranha, fato que termina por levar muitos a conceituações
modernas e distorcidas, que terminaram por alcançar o topônimo
Maranhão.
Ora,
Sou convicto de que nenhum maranhense aceita a pecha depreciativa, difundida
nos léxicos, sobre o significado do topônimo Maranhão.
Tal insólito fato decorreu não apenas da dinâmica
da língua, mas à ação inconseqüente ação
ou omissão de alguns, que preferiram abonar distorções.
Inconformado,
desde épocas que se perderam na poeira do tempo, já no outono
da vida resolvi buscar no Instituto Geográfico Brasileiro resposta
plausível para uma velha inquietação. Ao consultar
o Dicionário Histórico e Geográfico da Província
do Maranhão, recolhi as observações que se seguem
sobre o termo em pauta, no verbete MAR: “os que optaram por Maranhão
como sinônimo de mentira, certamente se valeram da prédica
do erudito e celebre jesuita padre Antônio Vieira – 1608-1697...
“...sempre em lucta no Maranhão, pregando na quinta dominga
de 1654 na igreja do seo collegio, tomando do Evangelho um texto apropriado
ao seu intento, recitou sobre a verdade e a mentira em longo discurso,
ou antes sátira mordaz e pungente contra os nossos antepassados,
seus antagonistas. Para aqui trasladamos o que elle disse sobre o título
do presente artigo por vir de alguma sorte confirmar o derivar-se este
nome de maranhas ou mentiras, como explicou o seu companheiro Manoel Rodrigues...”
...Disse
o padre Antônio Vieira, que se as lettras do abcedário se
houvessem de repartir pelas várias províncias de Portugal,
não havia dúvida, que o M pertencia de direito à
nossa província, porque M Maranhão, M murmurar, M moutejar,
M maldizer, M malsinar, M mexericar, e sobre tudo M mentir, mentir com
palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos. Que no Maranhão
até o sol era mentiroso, porque amanhecendo muito claro, e promettendo
um formoso dia, de repente e dentro de uma hora se toldava o ceo de nuvens,
e começava a chover como no mais entranhado inverno, e que d´ahi
já não era para admirar que mentissem os seus habitantes
como o ceo, que sobre elles influía”
Seguindo
essa mesma linha depreciativa, há citações em outros
registros, que prefiro omitir. Ora, se não bastasse a atitude de
alguns, que consideravam o nosso solo uma espécie de “Sibéria
do Reino Lusitano”, bem pior foi o padecer sob certas posturas conceituais.
O pio e erudito padre Antônio Vieira, por exemplo, em sub-repitícia
manifestação de revolta, contra tudo e contra todos, elegeu
a gente simples do Maranhão para “castigar” com suas
famosas catilinárias
Agindo
sob o manto da doutrinação cristã, usou o púlpito
para deblaterar contra o nosso povo, usando terminologias desairosas,
em seqüência ao anteriormente apontado.
“... Maranhão, corte da mentira”, e mais: “segundo
as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer
uma só verdade”. Mas que verdade será esta? Não
gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão
não há verdade...” – (Literatura Brasileira
– Sermões Escolhidos – Vol. I – Edameris, São
Paulo-1965).
Ora,
nenhuma culpa coube aos maranhenses pelo seu afastamento dos círculos
de influência junto à Corte e sua designação
para exercer “missão no Maranhão na catequização
dos tapuias” – (termos da nomeação). O célebre
doutrinador dos gentios, orador prodigioso, considerado, talvez, o maior
homem das letras portuguesas de todos os tempos, podia ter lá as
suas motivações pessoais, cujas perquirições
me parecem ociosas. Embora tenha influenciado gerações com
o seu notável saber, há que manifestarmos repúdio
contra o apontado deslize que tem atravessado séculos e se transformado
em desfavorável estigma em desfavor da história e da dignidade
da gente maranhense. Merece, contudo, perdão e a nossa prece.
Em
meados do século passado, surgiu o Dicionário Caldas Aulete
de Antenor Nascentes, Editora Delta – 1958, que registrou à
pág. 3138 – vol 3, ao lado da definição de
maranhão, s.m., como peta engenhosa, mentira; a propósito,
segue no verbete citação correlata do ínclíto
Rui Barbosa, figura de maior erudição na cultura nacional,
que possibilitou ser pinçada parte do que se segue: “...sempre
estou para ver a sua habilidade, como de um maranhão me engendra
na verdade. Dir-se-ia, porém, um caso de cólera morbus nos
domínios do senso moral. Tal a corrença e a coliquação
com que se sucedem os despropósitos e maranhões”.
(R. 3,7 Esfola da calúnia), pág 156 – ed. 1933).
Ainda
no Caldas Aulete há menção a Aq.Ribeiro, Volfrânio,
c 8 pág 252-4a.edição que assim registra: maranhão
- Brasil - Amazônia: madraçaria, malandragem, maranha, esperteza,
velhacaria, e diz que maranhar é o mesmo que emaranhar. Define
maranha, como fios, fibras enredadas ou embaraçadas, molho de cabelos,
cadarço, borra de seda; teia de lã já tecida, mas
não apisoada. Em linguagem figurada segue apontando: lance negativo,intrincado:
não me meto nessa maranha...” – e outras definições
do mesmo sentido.
É de se destacar que os grandes vultos da história da língua
pátria, acima mencionados, fizeram seus pronunciamentos em épocas
bem distintas, mas dando a entender que a segunda acepção
adotou uma certa coloração na primeira.
Há-de se notar que o Dicionário Caldas Aulete registra o
verbete maranhense como pessoa natural ou residente do Maranhão,
mas nada esclarece quanto ao étimo deste topônimo. (Grifo
do autor).
Além do popular Dicionário Aurélio – Ed. Nova
Fronteira - citado em fls que seguem, há que observarmos o que
diz o prestigioso dicionário do renomado filólogo Antônio
Houaiss - (Editora Objetiva – 2001), que assim dispõe sobre
o tema em pauta, na pág 1848:
1- l.maranhão s.m. (1697) – natural ou habitante do Estado
do Maranhão; maranhense. Etim. top. Maranhão;
2. -maranhão, s.m. (1851-1881) mentira engenhosa. Orig. etimológica
maranha+ao;
ver
maranh- sin/var, ver sinonímia de mentira, antonímia de
ardil e sinonímia de verdade.
1. maranhense, adj (1531cf IBGE) relativo ao Maranhão, estado do
Brasil, ou o que é o seu natural ou habitante Etim top. Maranhão+ense
para Maranhão, um dos muitos étimos su Aborda várias
suposições outras com base na língua Tupi e faz alusão
ao filólogo ao Antenor Nascentes, autor da observação
que segue: “numerosos são os étimos propostos, todos
eles não satisfatórios”, (Grifo do autor) –
e acolhe a seguinte sentença de A. Nascentes: “a questão,
apesar de todos estes esforços continua sem solução”.
E mais, do renomado historiador e filólogo: o nome do rio passou
ao Estado do Maranhão (1621) que abrangia (1722) a província
(1822) e, finalmente o Estado Federativo (1889). (Nota do autor: também
aqui não foi elucidada, de forma bem clara, a origem do topônimo
Maranhão).
Prosseguindo,
o filólogo Antônio Houaiss remete ao verbete “maranh-el
comp. antepositivo, do português maranha, espanhol maraña,
talvez pré-romano, quiçá cog. Do provençal
e franco provençal baragne´sarçal, carrascal, estorvo,
o que permitiria presumir cognação com o português
baranha. (espanhol baraña) baranho, o que autorizaria, por fim,
a cognição morfosemanticamente plausível com o português
baraço (1260) – quase sempre atribuído ao árabe
maraç/ma´rasa ´corda, cordel, a que JP.Machado apõe
a nota “estranho a ausência do art. definido arábico...
a ser assim, ter se-iam três bases conexas 1) maranh, 2)baranh e
barç, a saber: amaranhado, amaranhamento, amaranhar, desmaranhado,
desmaranhador, desmaranhamento, desmaranhante, desmaranhar, desmaranhável,
desmaranho, desmaranhado, desmaranhamento, desmaranhante, ... emaranhar,
maranha, maranhada, maranhão (não Maranhão) maranhar,
maranheiro, maranho, maranhoa, maranhia, e segue... 2) baranho, baranha,
3) baraça, baracinho... desembaraçado, embaraçado,
embaraçante, embaraça, embaraço...”(Grifo do
autor).
Em maranha, s.f. (1348)- l.originariamente: 1. porção de
fios ou fibras embaraçadas (molho de cabelos) <a meada virou
uma maranha> 2. teia ou trama de lã antes de ser apisoada, 3.
porção de coisas misturadas; confusão mistura; 4.
coisa intrincada e, agora, segue evoluindo: maquinação,
enredo, ardil, combinação, pacto, malandragem, confusão,
mexerico vadiagem etc... Aqui, cita ainda, maranhano- el.comp antepositivo
do top. Maranhão, em compostos do tipo Afro –(ver), cuja
lógica lhe é totalmente aplicável e maranhão
s.m.(1697obsl. Natural ou habitante do Maranhão.
Com
vistas ao retro mencionado, constatamos que estão inconclusos os
registros de renomados filólogos e historiadores. Assim sendo,
tendo em vista as desconfortantes e indesejadas conseqüências
que aspectos semânticos de determinados termos nos têm acarretado,
tornou-se imperiosa a busca de outros assentamentos que se referissem
à épocas pretéritas que, pela maior proximidade no
tempo, pudessem oferecer definições - mais claras - sobre
a origem do controvertido tema.
O Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua
Portuesa, de Antônio Geraldo da Cunha, 2º edição
- 1986, pág. 500, não define o étimo do topônimo
Maranhão. Mas registra os seguintes verbetes:
a) maranhense – adj s2g. “natural ou habitante do Estado Maranhão
relativo a este estado´´- do top Maranhão+ense - 1881;
b) maranha – s.f. ´fibras ou fios enredados´! Maranhas
pl. XIV, marañas pl. XV ¡ Possivelmente de origem pré-romana
- Des-Emaranhar - De-semma, 1813 – EmarranhADO - emma-XVII - emaranhar
[emma] 1813 – maranhÃO, s.m. ´grande mentira´
1881.
I
- Dicionário Português Espanhol - 2004 – Editora FTD
S/A – São Paulo – (Maria Esmeralda Balestero e Alvarez
Maciel Souto Balbáz – pág 48:
Emaranhar: v. enmaranhar; enredar, mesclar, confundir.
DEFINIÇÕES
ESPANHOLAS
II -Dicionário Espanhol-Português – Editora Moderna
–São Paulo – 2004 – Por Miguel Diez/Garcia Talavera,
pág. 333:
Ma.ra.ña – s.f. 1) lugar coberto de mato. Matagal; 2) Fibras,
fios ou cabelos enrolados. Emaranhados. (Grifos do autor).
III
- UNIVERSIDADE DE ALCALÁ DE HENARES
Departamento
de Filologia - Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Dicionário
para la Enseñanza de la Lengua Española para Brasileiños
(2ª
tiragem –2001)
=
ma.ra.ña (maráña) – 1) f. Conjunto de árboles,
arbusto y otras plantas que crecen muy juntas y de forma salvaje: cortaram
la maraña para evitar incêndios; >maleza – emaranhado;
2) fig. Conjunto de hilos o de pelos enrollados entre si y que no se puedem
separar: intentó desenredar aquella maraña de pelo lleno
de nudos > enredo – maranhado. maleza: f.Conjunto de árboles,
arbustos y outras plantas que crecen my juntas e de forma salvaje: no
podian avanzar entre la maleza; la maleza ocultaba la fuente – emaranhado.
Observações.
Diante dos citados registros, fica bem clara a definição
de maraña em espanhol ou maranha na língua portuguesa, com
o mesmo significado de emaranhado ou conjunto de árvores, lugar
coberto, matagal, tal como registraram antigos filólogos portugueses.
Estes asseguraram que, ao ser adotado em maranha – o sufixo aumentativo
ão, veio a resultar, em Portugal, na designação do
topônimo Maranhão.
O
historiador Mário Meireles em “História do Maranhão”,
pág 30, registra com muita propriedade as importantíssimas
citações que se seguem:
|
Portugal - matagal, emaranhados. “...vegetação
que conserva características mais próximas das originais
- (relíquia de antiga floresta), conservada para fins científicos.
Foto Geofcul - Faculdade de Ciências da Universidadede Lisboa. |
a) Xavier Fernandes – Topônimos e gentílicos (Porto
1943)... que em Navarra existe uma localidade deste nome; entretanto,
ressalta que o vocábulo deve ser o aumentativo de maranha, sinônimo
de matagal, mesmo porque “na província do Minho existe o
topônimo Maranhas e, mais, porque Maranhão é o nome
de uma antiga aldeia alentejana, concelho de Avis, o que parece provar
que tal palavra existia em Portugal antes do descobrimento do Brasil”.
(Pg 30, História do Maranhão – Mário Meireles).
b) Cândido de Figueiredo, mestre da língua, discordando (Problemas
de linguagem, v.II) da hipótese de Orville Derby (Costa norte do
Brasil), de que o vocábulo seria uma variação morfológica
de marachão (dique, recife); esclarece que ele é simples
aumentativo de maraña – matagal , coisa enredada, teia de
lã; e fala naquela aldeia alentejana de que teríamos herdado
o topônimo. – (História do Maranhão, Meireles,
Mário - pág. 30). (Grifo do autor).
MARANHÃO – Etimologia do nome pág. 437.
Diz
o Comendador João Francisco Lisboa nos Apontamentos para a História
do Maranhão, Livro l, que os antigos cronistas e historiadores
armaram grandes disputas acerca da origem e etimologia do nome Maranhão,
sendo mui provável ter sido semelhante nome derivado de algum transitório
descobridor, pois o apelido de Maragnon, aportuguezado depois, já
de muitos séculos atrás era conhecido na Espanha; - (Grifo
do autor)
Nesta
mesma linha de raciocínio, aborda, de forma impar, o grande filólogo
e historiador português, Doutor J. Leite de Vasconcelos, em sua
Antroponímia Portuguesa, onde destacamos trechos elucidativos:
“o termo maraña já vigorava em Espanha e foi ter a
Portugal. Ressalta, com apoio em Cândido de Figueiredo – Vol.
II – 1928 – 3ª edição – que dispõe
às págs 88/95:
“ ... MARANHÃO – nome comum, é derivado de maranha,
palavra antiga em nossa língua, para onde veio do castelhano maraña...coisas
enredadas, a tela de lã já tecida”.
Em
nome do bom senso, em que pese os séculos decorridos, cabe-nos
buscar elucidar o tema em favor da auto-estima das futuras gerações
De
tal controvérsia, uma indagação tem desafiado séculos:
afinal, qual a origem do topônimo Maranhão? Após consultar
registros e opiniões de doutos historiadores, há que refutarmos
certas conclusões que não se coadunam com a verdade dos
fados. Afinal, são frágeis as ilações que
se valem do vocabulário indígena, das “mentiras”
– (maranhas) de Lopo Aguirre ou, ainda, o malabarismo que fizeram
utilizando os termos MAR-NON, com o objetivo de construir o vocábulo
Marañon, termo que já existia em Espanha há mais
de três séculos. Distanciados dos fatos ocorridos, somos
levados a sugerir a hipótese que tem por base a anciã Freguesia
do Maranhão português – pertencente ao município
de Avis, cuja existência traz vivas marcas da ocupação
romana no território lusitano, fato que precede à data da
fundação do Brasil. A propósito, o renomado filólogo
e historiador português assim se expressou, em livro que publicou
em Portugal, no ano de 1928:
“Portanto,
teremos de admitir que a razão que levou os portugueses a dar o
nome de MARANHÃO àquela grande maranha, em que se constituiu
uma aldeola alentejana – levaria outros filhos de Portugal a chamar
MARANHÃO àquela grande maranha da costa do Brasil”.
Pág. 60 – Antroponímia Portuguesa – Doutor J.
Leite de Vasconcellos 1928.
“Tudo
nos leva, pois, a crer que o termo maranhão, nome comum, derivado
de maranha, existia em Portugal antes do descobrimento do Brasil, para
designar a grande maranha conhecida hoje por MARANHÃO (Brasil)”.
– Assim conclui em Antroponímia Portuguesa, pág. 61,
o Doutor José Leite de Vasconcellos – 1928. Grifos do autor.
(Extratos de páginas gentilmente cedidas pelo Departamento de História
do Município de Avis, Portugal). Consultada, a Doutora Marta Alexandre
do Departamento de História da Municipalidade de Avis asseverou-nos
que não hesitaria um só instante em subscrever as conclusões
do Doutor J. Leite de Vasconcellos.
Entendemos,
assim, que as assertivas do destacado filólogo bem corroboram as
opiniões que foram esboçados por outros ilustres historiadores,
as quais incorporamos à presente obra, que ora levamos ao conhecimento
público.
José
Herênio
|
Parecer
da Professora Portuguesa
Maria de Lourdes Batista
Por
sabê-la dedicada ao estudo da lingüística e ser natural
de Portugal, procuramos ouvir a professora Maria de Lourdes Batista, que
assim opinou sobre a pesquisa encetada concernente ao termo maranha ou
maranhão, adotados na Língua Portuguesa:
“Honrou-me,
sobremaneira, o Dr. José Herênio de Souza, ao dar-me a conhecer
sua Pesquisa sobre o topônimo Maranhão. Ao elaborar sua tese,
após intenso labor, premia-nos o autor com a erudição
e o saber que lhe peculiar, afigurando-se como exemplar fonte de inspiração
aos que militam em favor das boas causas.
O trabalho a que ora me refiro reflete a importância do desenvolvimento
dos fatos históricos em relação à Língua
Portuguesa. Esse dinamismo lingüístico que nos tem explicado
as fases sincrônicas dos diassistemas, bem como a sucessão
de sincronias na diacronia.
Impossível deixar de mencionar o caráter conservador, por
exemplo, do latim hispânico, o que explica formas antigas que se
mantiveram no português e no espanhol.
Já no séc. VIII, há uma cisão geo-linguística,
desenvolvendo-se o falar galego, ao norte, e o moçorábico,
ao sul. Eis um exemplo do princípio sociolingüístico,
que explica a maior ou menor intensidade das transformações
lingüísticas.
Coube, porém, a Camões, embora tivesse usado formas populares,
o enriquecimento do léxico. Ele introduziu duas centenas de palavras
clássicas – (latinismos). Sem dúvida, ao usar o vocábulo
Lusitânia, sabia que era proveniente de Luso e Lysia, filhos e companheiros
de Baco.
O enfoque de José Herênio, em minha singela opinião,
deixa eloqüente prova de que o problema da língua portuguesa
no Brasil, envolve aspectos políticos, sentimentais e lingüísticos,
sendo as fontes históricas os seus mananciais.
Com vastíssima exemplificação, o autor procura desfazer
errôneas interpretações, direcionando a pesquisa para
a notável tese que propõe, com sólidas bases, postas
à margem há tanto tempo, talvez por séculos. Essa
uniformidade de estudo leva-o a preciosas colocações sedimentadas
no estudo filológico, demonstrando que a linguagem brasileira e
a origem das palavras – (inclusive o topônimo Maranhão),
por conseqüência, é bem mais que o sincretismo de dialetos.
Em verdade, é decorrência da variada procedência das
imigrações, sobretudo dos portugueses, desde os tempos da
colonização e bem antes dela.
O autor aponta, com inequívoca comprovação, elos
históricos e filológicos que nos aproximam e prendem indissoluvelmente
ao português de além-mar.
Ao cotejar todos esses fatos abordados, admite a existência de dicotomias,
arrolando, porém, traços e elementos diferenciadores que
são sobejos fundamentos incontestes desta pesquisa. Afinal, ela
tem incomum abrangência e dimensão para dirimir dúvidas
em torno do real significado do termo Maranhão.
Lastreados, pois, em inúmeras citações provenientes
de estudos filológicos, fica eloqüente que a proposição
ora apresentada pelo Dr. José Herênio de Souza tem respaldo
em
fontes da própria etimologia da palavra que veio a dar origem ao
termo que motiva sua interessante pesquisa.
De
priscas eras, sabe-se de aldeões – e a signatária
tinha ascendentes que o usavam - , que o vocábulo “maranha”
já era fluente em terras lusitanas, fato que coloca por terra os
frágeis “arranjos” lingüísticos que dizem
ter originado o termo “Maranhão”.
É
de bom alvitre reproduzir formas de falar que, muitas vezes, em altas
horas da noite, ao fiarem, as velhas senhoras, quando a lã se embaraçava
(significado hodierno), assim se expressavam: “a lã está
emaranhada – (o mesmo termo que já existia na Galiza).
Esta acepção, aplica-se, também, fertilmente, ao
mato quando muito denso, quase intransponível. Respaldam tal assertiva
os léxicos espanhóis que, como fonte originária,
foram introduzidos no presente trabalho.
Neste sentido, vale citar pequeno trecho do “Dicionário para
la Enseñanza de la Lengua Española para Brasileiños
= 1) f. ma.ra.ña (maráña) - conjunto de árboles,
arbusto y otras plantas que crecem muy juntas y de forma salvage: cortaram
la maraña para evitar incêndios… emaranhado...2)fig.
conjunto de hilos o de pelos enrollados entre si y que no se puedem separar...”
– ( Ver pág. 26, desta obra).
Atendo-nos a ensinamentos de mestres, cabe – aqui – transcrever
Xavier Fernandes – pág. 61 de Documentos Maranhenses nº.
13, referindo-se ao termo pesquisado:
“... se assim for, subsistirá apenas como um problema novo
que, a rigor, não é da História, mas dos filólogos
e lingüistas... E, por fim, à pág. 27 – (Topônimos
e Gentílicos), diz que o termo “seria simples aumentativo
de maranha, matagal.”
Por tudo isto, o autor comprova com maestria, que o vocábulo existia,
em Portugal, muito antes das frágeis e esdrúxulas conotações,
para justificar a origem da palavra Maranhão. Fixos em suas idéias,
os historiadores do passado não se deram conta da existência
pretérita da forma hispânica Marañon, no séc.
XIII. Preferiram, assim, ater-se a concepções vagas que
não poderiam prosperar face à posteridade. (Vide Bernardo
Berredo – (parágrafo 11 de seu relato, citado pelo autor
à página 31 deste livro).
Diante
das razões em apreço, ao opinar pela procedência das
considerações expostas pelo autor, subscrevo in totun os
termos do presente trabalho que, salvo melhor juízo, se me afiguram
de caráter conclusivo.
Rio
de Janeiro, janeiro de 2005.
Maria
de Lourdes Batista
Licenciada
em Letras. Pós-Graduada em Docência Superior e
Mestranda em Educação
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